Antes da teoria, existe um sujeito. Resposta curta: Não existe uma única linha da psicanálise que seja a melhor para todas as pessoas. A escolha de um analista depende menos da escola à qual ele se vincula e mais da forma como sustenta sua escuta diante da singularidade de cada paciente. É sobre isso que este texto trata. 

"Qual é a sua linha?" Essa costuma ser uma das primeiras perguntas que escuto quando alguém me procura pela primeira vez. Às vezes ela vem de forma direta. "Você é freudiano?" "Lacaniano?" "Winnicottiano?" Em outras ocasiões, a pergunta muda de forma. "Qual é a melhor linha para ansiedade?" "Existe uma abordagem mais indicada para quem passou por um trauma?" Qual seria mais adequada para o cuidado com o analisante com estrutura psicotica? Ou "Como saber qual tipo de psicanálise é melhor para mim?"

Sempre considerei essa uma boa pergunta. Não apenas porque revela curiosidade sobre a psicanálise, mas porque também diz algo sobre quem a faz. Quando alguém procura um analista, não está escolhendo apenas um profissional. Está tentando descobrir diante de quem talvez consiga dizer, pela primeira vez, aquilo que nunca encontrou um lugar para ser dito. Ainda assim, há um equívoco discreto escondido nessa pergunta. Ela parte da ideia de que primeiro escolhemos uma teoria e, depois, encontramos uma pessoa.

Minha experiência clínica foi me levando exatamente na direção oposta. Toda formação em psicanálise começa pelos grandes autores. É inevitável. Freud inaugura uma maneira radicalmente nova de compreender o sofrimento humano. Depois dele, outros analistas ampliaram esse horizonte, releram problemas antigos e iluminaram dimensões da experiência que ainda permaneciam pouco exploradas. Cada tradição acrescentou algo importante ao modo de pensar a vida psíquica. Nunca enxerguei nisso um problema.

O problema começa quando imaginamos que essa diversidade existe para que escolhamos um vencedor. Como se, em algum lugar, existisse uma teoria capaz de explicar, sozinha, toda a complexidade de uma vida. Durante muito tempo também pensei assim. Acreditava que estudar significava encontrar o autor que melhor descrevesse o funcionamento da mente. Quanto mais lia, porém, mais percebia que nenhum autor encerrava a experiência humana. Cada um ampliava um pouco mais o campo de visão. Mas foi a clínica que mudou definitivamente essa compreensão.

Depois de anos atendendo pessoas, nunca tive a impressão de que elas chegassem organizadas conforme os livros que eu havia estudado. Aconteceu exatamente o contrário. Foram elas que me obrigaram a voltar aos livros inúmeras vezes, descobrindo neles coisas que eu simplesmente não era capaz de enxergar antes de escutá-las. Há dias em que uma sessão inteira gira em torno de uma lembrança aparentemente banal. Em outros, tudo começa por um silêncio que nenhum livro seria capaz de antecipar. Foi a clínica que me ensinou aquilo que hoje considero uma das ideias mais importantes da minha prática:

A teoria prepara o analista para escutar. Ela nunca lhe entrega, de antemão, aquilo que irá encontrar. Quanto mais essa ideia amadurecia em mim, mais eu compreendia um paradoxo. Entramos na formação acreditando que estudamos para compreender as pessoas. Com o tempo, percebemos que são as pessoas que nos ensinam a compreender melhor aquilo que estudamos. Existe uma expectativa silenciosa que acompanha quase todo analista em formação: a esperança de que, depois de estudar o suficiente, finalmente compreenderá o sofrimento humano. 

Não acredito que essa expectativa nasça da arrogância. Na maior parte das vezes, ela nasce do desejo sincero de cuidar melhor. A clínica, porém, costuma frustrar essa esperança — e faz isso da melhor maneira possível. Ela nos lembra, sessão após sessão, que nenhuma vida cabe inteiramente dentro de um conceito. Nenhuma infância é igual à outra. Nenhum luto acontece da mesma forma. Nenhum amor termina pelas mesmas razões. E nenhum sofrimento chega ao consultório dizendo a qual autor pertence.

Talvez seja exatamente por isso que Freud, em Conselhos ao médico sobre o tratamento psicanalítico (1912), recomenda ao analista aquilo que chamou de atenção uniformemente suspensa. A expressão pode soar técnica, mas sua proposta continua profundamente atual. Ela não significa abandonar a teoria. Significa não permitir que ela selecione, antes do paciente, aquilo que merece ou não ser ouvido. A teoria permanece. Ela orienta a escuta. Sustenta o trabalho clínico. Mas não pode ocupar, antecipadamente, o lugar daquilo que ainda está tentando nascer na palavra de quem fala.

Sempre me impressionou o fato de uma das maiores contribuições de Freud não ser apenas uma teoria sobre o funcionamento da mente, mas uma ética da escuta. Talvez toda análise comece exatamente aí. Não quando encontramos a teoria certa. Mas quando aceitamos que existe alguém diante de nós cuja história ainda não conhecemos. Foi por isso que a pergunta inicial, aos poucos, deixou de fazer sentido para mim.

Hoje, quando alguém pergunta qual é a melhor linha da psicanálise, percebo que a questão decisiva é outra. Como um analista pode sustentar uma teoria suficientemente sólida para orientar sua escuta sem permitir que ela fale antes da pessoa que tem diante de si?

Foi essa pergunta — e não a busca por uma escola definitiva — que passou a orientar minha prática clínica. Ao longo desse percurso, encontrei em diferentes autores instrumentos fundamentais para pensar o sofrimento humano. Mas foi na obra de Donald Winnicott que passei a reconhecer, com mais nitidez, uma forma de compreender a clínica que encontrava ressonância naquilo que a própria experiência já vinha me ensinando: antes de interpretar, é preciso oferecer um espaço onde alguém possa existir, falar e, pouco a pouco, descobrir algo de si que ainda não havia encontrado palavras para dizer.

É sobre esse encontro — e sobre as razões pelas quais Winnicott se tornou minha principal referência clínica, mas longe de ser a unica — que pretendo falar na continuação deste ensaio.