Quanto mais opções temos, mais difícil se torna amar?
Uma leitura psicanalítica sobre aplicativos de relacionamento, desejo e a dificuldade de permanecer.
Talvez poucas imagens traduzam tão bem a experiência amorosa contemporânea quanto um gesto aparentemente banal: deslizar o dedo sobre a tela. Repetimos esse movimento enquanto percorremos notícias, fotografias, músicas, vídeos e conversas e, de maneira cada vez mais natural, também quando nos aproximamos de outras pessoas. Em poucos segundos decidimos permanecer ou seguir adiante, não necessariamente porque aquilo que encontramos seja insuficiente, mas porque aprendemos a viver sob a expectativa silenciosa de que a próxima possibilidade poderá ser melhor.
Seria simplista concluir, a partir dessa cena, que a tecnologia empobreceu o amor ou que os aplicativos produziram relações superficiais. Essa leitura, embora sedutora, deixa escapar algo essencial. Nunca foi tão fácil conhecer pessoas, atravessar distâncias, iniciar conversas e construir encontros que, em outros tempos, talvez jamais acontecessem. As possibilidades de aproximação se ampliaram de forma extraordinária e seria injusto ignorar essa transformação.
Ao mesmo tempo, toda mudança cultural reorganiza as maneiras pelas quais o sofrimento se apresenta. Não porque altere a estrutura do desejo humano, mas porque modifica as condições em que ele é vivido. Na experiência clínica contemporânea, não são incomuns relatos de relações que começam com intensidade e entusiasmo, mas se desfazem justamente quando deixam de existir apenas como promessa. Em muitos casos, não há grandes conflitos nem incompatibilidades evidentes. O que aparece é algo mais discreto: a dificuldade de sustentar um vínculo quando o outro deixa de ocupar o lugar da expectativa e passa a existir como alguém real, com limites, diferenças, contradições e uma história própria.
Talvez a questão não esteja apenas na facilidade de encontrar alguém, mas na dificuldade crescente de interromper a busca. Vivemos em uma cultura que tornou a possibilidade quase um valor em si. Há sempre uma atualização, uma nova recomendação, outro caminho a explorar. Essa lógica atravessa a maneira como consumimos informações, objetos e experiências e dificilmente deixaria de alcançar também os vínculos amorosos. Não porque tenhamos desaprendido a amar, mas porque nos acostumamos à sensação de que toda escolha pode permanecer provisória.
Escolher alguém nunca significou apenas dizer "sim" a uma pessoa. Toda escolha produz também uma renúncia silenciosa: a de reconhecer que outras possibilidades deixarão de ser vividas. Durante muito tempo, essa perda fazia parte da própria experiência de escolher. Hoje, entretanto, ela parece continuamente adiada pela impressão de que ainda existe alguém por encontrar logo adiante.
Talvez uma das ilusões do nosso tempo seja imaginar que podemos continuar escolhendo sem jamais experimentar a perda que toda escolha inevitavelmente produz. Essa observação não nasce da nostalgia. Tampouco pretende sugerir que amar tenha sido mais simples em outras épocas.
Creio que Freud nao sustentou algo semelhante.
Em O mal-estar na civilização, ele observa que uma das experiências mais intensas de felicidade também nos coloca na posição de maior vulnerabilidade. Nunca estamos tão expostos ao sofrimento quanto quando amamos. O amor sempre implicou risco, dependência, frustração e a descoberta de que o outro jamais poderá ser inteiramente controlado ou corresponder integralmente às nossas expectativas.
Sob esse aspecto, pouco mudou. O que mudou foram as condições culturais em que essa experiência acontece. Talvez nunca tenhamos disposto de tantos recursos para adiar o momento em que uma relação exige uma escolha efetiva. Podemos conversar durante semanas sem nomear um vínculo, manter diferentes possibilidades abertas ao mesmo tempo ou partir diante dos primeiros desencontros. Muitas dessas decisões são perfeitamente legítimas. Outras, porém, parecem responder menos ao desejo do que ao esforço permanente de evitar tudo aquilo que o amor inevitavelmente convoca: a incerteza, a perda e a vulnerabilidade.
É justamente nesse ponto que a leitura de Lacan oferece uma contribuição decisiva. Ao longo de seu ensino, ele mostra que o desejo humano nunca se reduz ao objeto que imagina poder satisfazê-lo. Isso não significa que nenhuma relação possa trazer alegria ou intimidade, mas que aquilo que buscamos no outro excede aquilo que somos capazes de nomear conscientemente. Cada encontro mobiliza fantasias, identificações, lembranças e marcas inconscientes que pertencem à história singular de quem ama.
Por essa razão, esperar que alguém elimine definitivamente nossa falta talvez seja atribuir ao amor uma tarefa que nunca lhe pertenceu. Quando acreditamos que a próxima escolha finalmente encerrará nossa inquietação, corremos o risco de transformar o desejo em uma busca infinita por um objeto que, por definição, jamais poderá cumprir essa função. Não porque as pessoas sejam insuficientes, mas porque o desejo humano não funciona como um catálogo de atributos capaz de ser plenamente completado.
Donald Winnicott oferece outra perspectiva importante quando escreve sobre a capacidade de estar só. Essa ideia costuma ser confundida com independência ou autossuficiência, mas sua formulação é muito mais delicada. Para Winnicott, a capacidade de estar só nasce da experiência de ter podido estar só na presença de alguém suficientemente confiável. Aos poucos, essa presença é internalizada, permitindo que ausências, intervalos e silêncios deixem de ser vividos automaticamente como abandono.
Essa formulação ilumina também uma questão sobre o amor. Permanecer não significa suportar qualquer relação. Existem vínculos violentos, abusivos ou destrutivos dos quais partir é uma forma necessária de cuidado. Mas também existem relações que terminam porque toda diferença passa a ser tomada como evidência de que a escolha foi um erro. Nenhuma história atravessa o tempo preservando intacta a imagem construída no início. Todo vínculo suficientemente longo conhece diferenças, desencontros, momentos de tédio, decepções e reorganizações.
Talvez amar implique descobrir que o outro nunca coincidirá inteiramente com aquilo que imaginávamos — e reconhecer que é justamente essa diferença que torna possível um encontro entre dois sujeitos, e não apenas entre duas idealizações. Os aplicativos não inventaram a solidão. Também não explicam, por si sós, as dificuldades dos vínculos contemporâneos. Seria confortável acreditar que bastaria abandoná-los para reencontrar relações mais profundas, mas isso reduziria um fenômeno complexo a uma única causa. A pergunta talvez seja outra: o que acontece com o desejo quando a próxima possibilidade nunca desaparece completamente? O que acontece com um encontro quando ele permanece sendo comparado, ainda que silenciosamente, a todos os encontros que poderiam acontecer?
Uma análise não oferece critérios para reconhecer a pessoa certa, tampouco elimina a incerteza que acompanha qualquer relação. Ela convida cada sujeito a investigar aquilo que procura quando procura alguém, o lugar que espera ocupar no desejo do outro e as fantasias que sustentam suas escolhas.
Talvez o amor não comece quando encontramos alguém que finalmente corresponda às nossas expectativas. Talvez ele comece quando aceitamos que nenhuma relação poderá nos poupar do encontro com a alteridade, com os limites do outro e com aquilo que em nós mesmos permanece irredutível. É somente nesse momento que um vínculo deixa de ser uma possibilidade imaginada e começa, de fato, a transformar-se em uma história.
