Quando a escuta também precisa sustentar. 

Na primeira parte deste ensaio, procurei responder a uma pergunta que escuto com frequência: qual é a melhor linha da psicanálise para determinado sofrimento? Cheguei, então, a outra questão, que me parece mais importante: como um analista pode sustentar uma teoria suficientemente sólida para orientar seu trabalho sem permitir que ela fale antes da pessoa que tem diante de si? Foi essa pergunta, mais do que a procura por uma escola definitiva, que me aproximou da obra de Donald Winnicott.

Não se tratou de uma escolha repentina, nem de uma identificação imediata com um conjunto de conceitos. Ao longo da formação, muitas vezes compreendi um texto com clareza e, ainda assim, diante de um paciente, percebi que compreender a teoria não equivalia a compreender aquela pessoa. Os livros organizavam aquilo que, na clínica, surgia de maneira irregular, ambígua e, por vezes, contraditória. O paciente nunca aparecia como a confirmação perfeita do que eu havia estudado. Era justamente o contrário: sua presença colocava a teoria em movimento, obrigava-me a relê-la e, algumas vezes, a reconhecer os limites daquilo que eu acreditava já saber.

Esse desconforto não indicava uma falha da teoria. Revelava algo próprio da experiência analítica: nenhuma formulação, por mais consistente que seja, consegue antecipar inteiramente aquilo que acontece quando alguém começa a falar de si. Foi também a clínica que me fez perceber que uma interpretação pode estar correta e, ainda assim, chegar cedo demais. Pode ser coerente, precisa e teoricamente bem construída, mas não encontrar, naquele momento, condições para ser recebida. Não porque o paciente seja incapaz de compreendê-la, tampouco porque lhe falte inteligência ou disposição para o trabalho analítico, mas porque existem experiências que, antes de adquirirem um sentido, precisam encontrar um lugar onde possam ser sustentadas sem se desfazer.

Essa percepção modificou minha maneira de escutar. Passei a me perguntar não apenas o que determinado sintoma significava, mas também o que havia acontecido para que ele se tornasse necessário; não apenas qual conflito estava sendo repetido, mas que forma de existência aquela repetição tentava preservar. Foi nesse ponto que Winnicott começou a fazer sentido para mim: não como o autor que oferecia respostas mais simples, mas como alguém que parecia interessado em uma dimensão do sofrimento que nem sempre se apresenta imediatamente como conflito, desejo reprimido ou formação de compromisso.

As pessoas não chegam ao consultório dizendo que desenvolveram um falso self, que lhes faltou holding ou que experimentam uma ruptura da continuidade de ser. Essas palavras pertencem aos livros. Elas chegam dizendo que estão cansadas, embora não consigam descansar; que passam a vida correspondendo às expectativas dos outros e já não sabem quem são quando ninguém espera nada delas; que construíram relações, carreiras e projetos, mas continuam com a impressão de que assistem à própria vida de algum lugar distante.

Algumas conseguem falar durante uma sessão inteira e, ao final, sentem que não disseram nada de si. Outras parecem conhecer profundamente as necessidades de todos ao redor, mas não reconhecem as próprias. Há também aquelas que aprenderam a funcionar com tamanha eficiência que o sofrimento quase desaparece sob a competência, a disponibilidade e o cuidado oferecido aos outros. Por fora, a vida segue organizada; por dentro, permanece a sensação de que alguma coisa fundamental não chegou a ser vivida.

Foi diante dessas experiências que uma pergunta passou a ocupar um lugar central em minha clínica: O que acontece quando alguém precisa se adaptar ao mundo antes de ter encontrado condições para simplesmente ser?

Winnicott dedicou grande parte de sua obra ao desenvolvimento emocional primitivo, isto é, às condições pelas quais o bebê começa a adquirir a experiência de existir como alguém relativamente integrado e real. Nesse estágio inicial, não há ainda um sujeito plenamente separado, capaz de reconhecer com clareza o que pertence a si e o que pertence ao ambiente. Há uma dependência radical, e é a resposta suficientemente adequada do ambiente que permite que a experiência de ser se desenvolva sem interrupções excessivas.

Uma das expressões mais importantes de Winnicott para pensar esse processo é a continuidade de ser. Ela não significa apenas permanecer vivo ou conservar uma identidade estável. Refere-se à possibilidade de experimentar a existência como algo contínuo, de sentir que a vida acontece a partir de dentro e que existe uma ligação entre aquilo que se sente, aquilo que se deseja e aquilo que se vive.

Essa continuidade não nasce pronta. Ela depende, inicialmente, de um ambiente capaz de proteger o bebê de exigências para as quais ele ainda não possui recursos. Quando esse cuidado é suficientemente ajustado, o bebê pode simplesmente continuar sendo, sem precisar reagir o tempo todo a falhas, ausências ou intrusões que ultrapassem sua capacidade de elaboração.

O termo “suficientemente” é decisivo. Winnicott não fala de uma mãe perfeita, nem de uma maternidade sem falhas. A mãe suficientemente boa não é um ideal moral, tampouco uma mulher que acerta sempre. É o nome dado a uma função de cuidado que, no início, adapta-se intensamente às necessidades do bebê e, aos poucos, passa a falhar de maneira gradual, em uma medida que ele já consegue suportar. Essas pequenas falhas não impedem o amadurecimento; quando acontecem no tempo possível, tornam-se parte dele.

Também não se trata de responsabilizar individualmente as mães por todo sofrimento futuro. A função ambiental pode ser exercida por diferentes cuidadores e é atravessada pelas condições familiares, sociais e materiais nas quais o cuidado acontece. Reduzir Winnicott a uma teoria sobre mães culpadas seria não apenas injusto, mas conceitualmente equivocado. Seu interesse estava nas condições ambientais que favorecem ou dificultam a integração psíquica, e não na produção de um julgamento moral sobre quem cuida.

Quando o ambiente falha de forma intensa, precoce ou repetida, o bebê pode precisar reagir antes de possuir recursos para fazê-lo. Em vez de a experiência partir espontaneamente de dentro, a existência começa a se organizar em resposta às exigências externas. A reação ocupa o lugar da continuidade. A adaptação torna-se necessária antes que a espontaneidade tenha encontrado condições para se desenvolver.

É importante dizer que nenhuma vida é construída sem adaptação. Vivemos entre outras pessoas, aprendemos códigos, aceitamos limites e fazemos concessões. Há uma dimensão social do self que é saudável e necessária. O problema não está em adaptar-se, mas no lugar que essa adaptação ocupa. Quando ela se torna predominante, a pessoa pode passar a viver quase inteiramente orientada pelo que o ambiente espera, preservando em algum lugar uma experiência de si que permanece protegida, silenciosa ou pouco acessível.

É nesse contexto que Winnicott formula sua concepção de falso self. A expressão pode sugerir, equivocadamente, uma personalidade mentirosa ou uma máscara escolhida para enganar os outros. Não é disso que se trata. O falso self não é uma fraude; é uma organização defensiva. Em seus graus mais intensos, ele protege aquilo que Winnicott chamou de verdadeiro self, impedindo que a espontaneidade seja novamente exposta a um ambiente percebido como invasivo ou pouco confiável.

O verdadeiro self, por sua vez, não deve ser entendido como uma essência secreta, uma identidade pura escondida atrás das aparências ou uma versão idealizada de quem alguém “realmente é”. Ele diz respeito à possibilidade do gesto espontâneo, à experiência de sentir-se real e de reconhecer alguma autoria naquilo que se vive. Trata-se menos de descobrir uma personalidade autêntica já pronta e mais de recuperar a capacidade de existir de uma maneira que não seja inteiramente determinada pela necessidade de reagir.

Essa distinção alterou profundamente minha relação com as defesas. Não procuro arrancá-las como quem remove obstáculos que escondem uma verdade. Uma defesa não surge por acaso. Ela aparece porque, em algum momento, cumpriu uma função necessária. Antes de perguntar o que ela esconde, procuro compreender aquilo que tentou preservar.

Há pessoas cuja capacidade de adaptação merece ser reconhecida antes de ser interpretada. Aquilo que hoje produz sofrimento pode ter sido, em outro momento, a melhor solução disponível. A criança que aprendeu a antecipar o humor dos adultos talvez tenha conseguido preservar algum vínculo essencial; o adolescente que se retirou afetivamente pode ter encontrado na distância uma forma de não se desorganizar; o adulto que responde a todas as demandas com competência talvez tenha construído, nessa eficiência, uma proteção contra o medo de não ser necessário ou de não encontrar lugar.

Compreender uma defesa não significa torná-la permanente, mas reconhecer sua inteligência. A transformação clínica não começa pela humilhação daquilo que permitiu ao sujeito sobreviver. Começa quando a defesa já não precisa trabalhar sozinha. Foi nesse ponto que o conceito de holding se tornou especialmente importante para mim.

Em Winnicott, o holding nasce da experiência concreta de sustentação oferecida ao bebê: a maneira como ele é segurado, protegido, cuidado e preservado de intrusões excessivas. Não se trata apenas de um gesto físico, mas de uma organização ambiental que lhe permite existir sem precisar reagir continuamente ao risco de queda, abandono ou desintegração.

Na clínica, esse conceito não pode ser reduzido à gentileza, ao acolhimento ou a uma atitude indefinidamente protetora. O holding analítico envolve a confiabilidade do enquadre, a regularidade dos encontros, a atenção ao tempo do paciente, a preservação dos limites e a capacidade do analista de permanecer presente sem transformar sua presença em invasão. Ele não substitui a interpretação, mas cria, em certas situações, as condições para que ela possa ser recebida e utilizada.

Há sofrimentos que não pedem imediatamente uma explicação. Pedem, antes, um lugar onde possam existir sem serem corrigidos, apressados ou traduzidos cedo demais. Nesses casos, interpretar antes que uma experiência tenha encontrado sustentação suficiente pode ser vivido como mais uma intrusão, mesmo quando a formulação do analista é teoricamente correta.

Isso não significa que o analista deva permanecer silencioso, passivo ou apenas acolhedor. Sustentar não é concordar com tudo, evitar conflitos ou eliminar frustrações. O setting analítico não é um espaço sem limites. Ao contrário: sua capacidade de sustentar depende justamente de sua confiabilidade. Horários, frequência, pagamento, presença, ausências e intervenções fazem parte dessa experiência. O cuidado não está na ausência de contorno, mas na possibilidade de que o contorno não seja arbitrário, imprevisível ou usado para defender o analista daquilo que o paciente desperta.

O holding também não deve ser confundido com a produção de dependência. Em alguns tratamentos, a possibilidade de depender do setting pode ser parte fundamental do processo, especialmente quando experiências primitivas de confiança não puderam se constituir de maneira suficiente. Mas permitir uma dependência analítica não é infantilizar o paciente nem mantê-lo indefinidamente submetido ao analista. É sustentar, dentro de limites clínicos, uma experiência que possa ser integrada e, posteriormente, dispensada. A finalidade não é fazer com que alguém precise para sempre de um ambiente protegido. É permitir que aquilo que só conseguia existir sob proteção passe, gradualmente, a ser vivido como parte de si. 

Foi também por Winnicott que passei a atribuir um lugar ainda mais importante ao brincar. Para ele, o brincar não é apenas uma atividade infantil, mas uma forma fundamental de experiência. É no espaço potencial — uma região que não pertence inteiramente ao mundo interno nem se reduz à realidade externa — que a criatividade, a cultura e a própria análise se tornam possíveis.

Brincar, nesse sentido, não significa divertir-se. Significa poder experimentar sem que tudo esteja previamente decidido; aproximar-se de pensamentos, afetos e fantasias sem precisar transformá-los imediatamente em verdades definitivas; permitir que algo novo aconteça entre duas pessoas. A associação livre possui também essa qualidade: ela pede que o sujeito suspenda, ao menos por instantes, a obrigação de organizar, controlar ou justificar tudo o que aparece.

Quando alguém não consegue brincar, a tarefa analítica não é exigir interpretações cada vez mais sofisticadas. É ajudar a construir as condições para que essa capacidade possa surgir. Uma análise viva não acontece apenas quando o paciente compreende algo sobre si, mas também quando começa a experimentar a própria vida de maneira menos rígida, menos submetida à repetição e mais aberta à criação.

Essa criatividade não precisa produzir uma obra de arte. Ela está presente quando alguém sente que participa daquilo que vive, quando uma escolha deixa de ser apenas resposta às expectativas externas, quando uma relação pode ser habitada sem a obrigação permanente de desempenhar um papel. É a diferença entre funcionar e sentir-se vivo.

Ao longo dos anos, foi essa dimensão da obra de Winnicott que mais encontrou ressonância em minha prática. Na clínica individual, assim como nos dispositivos grupais, com adolescentes e adultos, aprendi que o sofrimento nem sempre se apresenta como algo que precisa ser decifrado. Algumas vezes, ele aparece como ausência de vitalidade, sensação de irrealidade, dificuldade de habitar o próprio corpo, medo de depender, incapacidade de descansar na presença de outra pessoa ou necessidade constante de adaptação.

Nessas situações, a pergunta “o que isso significa?” continua sendo importante, mas já não é suficiente. É preciso perguntar também: “em que condições isso pôde ou não pôde ser vivido?”, “que tipo de ambiente esse sujeito encontrou?” e “o que precisa acontecer entre nós para que uma experiência até então protegida possa surgir sem ser novamente ameaçada?”.

Winnicott não substituiu os outros autores que estudei. Sua obra acrescentou uma dimensão que se tornou particularmente fecunda para minha clínica. Freud permanece fundamental para pensar o inconsciente, o conflito, a sexualidade, a repetição e a transferência. Outros autores oferecem instrumentos indispensáveis para compreender a fantasia, as relações de objeto, a linguagem, o pensamento, a simbolização e as formas mais graves de sofrimento psíquico.

Não acredito que todos estejam dizendo a mesma coisa. As diferenças teóricas existem, são importantes e não devem ser dissolvidas em uma síntese confortável. Trabalhar com diferentes tradições não significa misturá-las indiscriminadamente, como se os conceitos fossem intercambiáveis. Significa reconhecer que a experiência humana possui níveis e dimensões que nenhuma formulação isolada consegue esgotar.

Winnicott tornou-se minha principal referência não porque tenha encerrado essas diferenças, mas porque sua obra ofereceu uma linguagem especialmente sensível para algo que a clínica continuava me mostrando: antes que uma pessoa possa compreender o próprio sofrimento, talvez seja necessário que ela encontre condições para vivê-lo sem se perder de si.

Nesse sentido, Freud e Winnicott não ocupam o mesmo lugar em meu pensamento, nem precisam ser transformados em autores equivalentes. Há, porém, um ponto de encontro que considero decisivo. Ao recomendar a atenção uniformemente suspensa, Freud advertiu o analista contra a seleção antecipada daquilo que deveria ser considerado importante. Winnicott, por sua vez, ampliou minha compreensão das condições ambientais necessárias para que algo possa emergir, ser vivido e, somente então, tornar-se passível de interpretação.

Freud me ensinou a não escolher antecipadamente aquilo que merece ser escutado. Winnicott me ensinou que, em alguns momentos, aquilo que precisa ser escutado só consegue aparecer quando encontra sustentação suficiente para não se desfazer. Foi nesse intervalo — entre escutar e sustentar, interpretar e esperar, conhecer a teoria e não utilizá-la como abrigo contra o desconhecido — que minha clínica foi encontrando sua forma.

Continuo estudando porque a teoria é indispensável. É ela que amplia a escuta, oferece linguagem ao pensamento e impede que o analista transforme suas impressões pessoais em verdade clínica. Mas a teoria também pode se tornar uma defesa quando é utilizada para eliminar rapidamente a incerteza, enquadrar o paciente ou proteger o próprio analista da experiência de não saber.

Talvez uma das tarefas mais difíceis de nossa profissão seja justamente esta: estudar o suficiente para que a teoria esteja presente e, ao mesmo tempo, não permitir que ela ocupe o lugar daquele que veio falar. Antes da teoria, existe um sujeito.

E, diante dele, o analista precisa suficientemente bom para não se precipitar em saber.