Três formações diferentes, uma dúvida comum. O que cada um faz, quando um não exclui o outro e como escolher sem precisar acertar de primeira.

Você já decidiu que precisa de ajuda. O que ainda não decidiu é a quem pedir. Uma amiga indicou a psicóloga dela. O médico da família falou em psiquiatra. Um vídeo dizia que psicanálise é longa demais; outro, que é a única que vai fundo. Você abriu três abas, comparou, fechou as três — e não marcou nada, porque escolher errado parecia pior do que continuar adiando.

  Essa hesitação é mais comum do que parece, e não é falta de decisão. É que a pergunta "quem procurar?" costuma vir junto de outra, mais difícil: "o que exatamente eu tenho?". Mas não é preciso responder à segunda para dar o primeiro passo.

O que cada um faz e o que não faz cada profissional:

O psiquiatra é médico. Fez medicina e depois se especializou em psiquiatria. Faz o diagnóstico médico e é o único dos três que pode prescrever medicação e acompanhar seus efeitos. Alguns psiquiatras também fazem psicoterapia; muitos trabalham com consultas mais curtas e espaçadas, voltadas ao diagnóstico e ao acompanhamento do tratamento medicamentoso.

 O psicólogo fez graduação em psicologia e tem registro no Conselho Regional de Psicologia. A psicologia é um campo amplo: o psicólogo clínico pode trabalhar com abordagens muito diferentes entre si — terapia cognitivo-comportamental, psicanálise, abordagens humanistas, entre outras. Não prescreve medicação.

 O psicanalista se define por um método, não por um diploma de origem. A psicanálise é uma forma específica de escuta e de tratamento criada por Freud, e a formação do psicanalista se dá em instituições de psicanálise, sustentada no que se costuma chamar de tripé: a própria análise pessoal, a supervisão clínica e o estudo teórico. Muitos psicanalistas são também psicólogos ou médicos; outros vêm de outras formações. O próprio Freud defendeu, em 1926, que a psicanálise não devia ser reservada aos médicos — o que importa é a formação analítica, não a profissão anterior. Como não existe um conselho que regule a psicanálise no Brasil, vale perguntar ao profissional onde se formou, se está em análise e se tem supervisão. Um analista sério responde a isso sem constrangimento.

Dito de outro modo: o psiquiatra trata sobretudo com medicação; psicólogos e psicanalistas tratam pela palavra — e um psicólogo pode, também, ser psicanalista.

Preciso de remédio ou preciso de terapia?

Essa pode ser a dúvida que mais paralisa, e ela parte de uma premissa falsa: a de que é preciso escolher um ou outro. Na prática, muitas pessoas fazem análise e usam medicação ao mesmo tempo, e as duas coisas não competem. O remédio pode reduzir a intensidade de um sintoma — a insônia, o pânico, uma tristeza que impede de levantar da cama — e, ao fazer isso, muitas vezes torna possível o trabalho de falar. A análise, por sua vez, se ocupa do que o remédio não alcança: a história que se repete, o modo como você se relaciona com o que sente, aquilo que o sintoma está tentando dizer.

Há situações em que o psiquiatra deve vir primeiro, ou junto, sem demora: quando o sono desapareceu há semanas, quando você deixou de conseguir trabalhar ou cuidar do básico, quando há sintomas que assustam — ouvir ou ver o que os outros não percebem, por exemplo — e, sobretudo, quando existe risco à própria vida. Nesses casos, procure ajuda imediata: um pronto-socorro, o CVV (188, 24 horas) ou um psiquiatra com urgência. A análise pode começar depois, ou em paralelo — mas a segurança vem antes.

Fora dessas situações, a ordem importa menos do que parece. Quem começa pelo psiquiatra pode ser encaminhado para a terapia. Quem começa pela terapia será orientado a procurar um psiquiatra se o terapeuta perceber que a medicação faria diferença. Um bom profissional, de qualquer uma das três áreas, sabe quando o outro é necessário.

Psicólogo ou psicanalista: qual é a diferença, afinal?

Aqui a confusão é legítima, porque as duas figuras se sobrepõem. A diferença não está em quem é "melhor", e sim no que cada abordagem propõe fazer com o sofrimento. Muitas abordagens psicológicas trabalham com objetivos definidos: identificar pensamentos que alimentam a ansiedade, treinar respostas diferentes, reduzir um sintoma em um número previsto de sessões. Isso funciona para muita gente e para muitos problemas.

A psicanálise parte de outra pergunta. Ela não pergunta apenas como fazer o sintoma parar, mas o que ele está dizendo. Para a psicanálise, uma ansiedade que não cede, uma relação que se repete, um cansaço que nenhum descanso resolve não são só defeitos a corrigir — são também formas de dizer algo que ainda não encontrou palavras. O trabalho consiste em criar as condições para que isso possa ser dito: falando livremente, sem roteiro, com alguém que escuta de um modo diferente de como os amigos, a família ou você mesmo escutam.

Por isso a análise não promete um número de sessões. Não porque seja interminável, mas porque o tempo de cada pessoa para dizer o que precisa ser dito não se conhece de antemão. Freud, já em 1913, respondia à pergunta sobre quanto dura um tratamento com a fábula do viajante que pergunta quanto falta e ouve, como resposta, "caminhe" — só o passo de cada um permite estimar o caminho. Algumas análises são breves; outras acompanham uma pessoa por anos, em fases diferentes da vida. O que muda, quando muda, costuma ser menos o desaparecimento de um sintoma isolado e mais a relação que você tem com a sua própria história — o que, com frequência, alivia o sintoma pelo caminho. Se você já tentou entender "racionalmente" o que sente, já sabe que não está exagerando e mesmo assim nada muda, essa pergunta — o que isso está dizendo? — talvez seja a que faltava.

E se eu escolher errado?

Você não vai escolher errado, porque essa não é uma escolha de uma vez só. É comum que a primeira conversa com um profissional sirva justamente para isso: entender melhor o que você está vivendo e, se for o caso, ser encaminhado. Um psicanalista sério indica um psiquiatra quando a medicação é necessária. Um psiquiatra atento indica a terapia quando percebe que o remédio sozinho não vai dar conta. Não é preciso acertar na primeira tentativa.

O que costuma decidir, no fim, não é a teoria, mas o encontro: se você se sentiu escutado, se conseguiu falar um pouco mais do que costuma falar, se saiu da primeira conversa com a sensação de que ali cabe o que você tem a dizer. Isso não se sabe antes de ir. E se não acontecer com um profissional, pode acontecer com outro — sem que isso signifique que você "não serve para terapia".

Como trabalho isso na clínica:

Muitas pessoas chegam a mim com essa mesma dúvida, e eu não peço que a resolvam antes de vir. A primeira conversa é uma conversa: você fala do que está acontecendo, eu escuto e faço algumas perguntas — inclusive se você já toma alguma medicação ou se já passou por um psiquiatra. Se, ao longo do trabalho, eu perceber que uma avaliação psiquiátrica ajudaria, digo isso com clareza e, quando você quiser, converso com o psiquiatra que acompanha você. Não vejo a medicação como adversária da análise; vejo como algo que, em certos momentos, torna a análise possível.

Também não peço um diagnóstico para começar. Você pode chegar com um laudo, com uma suspeita ou só com a sensação de que continuar do mesmo jeito já não dá. Trabalho com adultos e adolescentes, presencialmente em São Paulo e online, e com frequência a primeira coisa que muda não é o sintoma — é o fato de que ele deixa de ser suportado em silêncio.

Comece por onde estiver mais fácil começar:

Se a dúvida entre psicólogo, psicanalista e psiquiatra está adiando o seu primeiro passo, talvez a saída seja inverter a ordem: dar o passo e deixar que a dúvida se resolva no caminho. Marque com quem estiver mais acessível e mais próximo do que você sente que precisa — e, se for o caso, com os dois. O resto se decide falando.

Se algo neste texto soou familiar, não é preciso ter certeza de nada para dar um primeiro passo. 

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Referências usadas neste texto:

  • FREUD, S. (1913). O início do tratamento. In: Obras completas, v. 10: Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia, Artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
  • FREUD, S. (1917). Conferência 17: O sentido dos sintomas. In: Obras completas, v. 13: Conferências introdutórias à psicanálise (1916-1917). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  •  FREUD, S. (1926). A questão da análise leiga: diálogo com um interlocutor imparcial. In: Obras completas, v. 17: Inibição, sintoma e angústia, O futuro de uma ilusão e outros textos (1926-1929). Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
  •  BRASIL. Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962. Dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta a profissão de psicólogo.
  • CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA (CVV). Apoio emocional gratuito, 24 horas, pelo telefone 188 e em cvv.org.br.